O gordo

Último curriculo entregue… Pensou ele. Assim que virou costas à senhora que o tinha recebido, o sorriso voltou para casa onde o computador esperava por ele, e a cara assumiu aquela expressão de neutro aborrecimento que quase sempre lhe fazia companhia. Não havia propriamente esperança que desta vez desse nalguma coisa. A esperança tinha emigrado, que era o que o pai dele dizia que ele devia fazer. Mas enquanto não se decidisse que estava na hora de ir embora, ia entregando currículos. Nem que fosse por uma questão estatística havia de ser chamado para algum lado.

O telefone tocou – pipipi pi pi pipipi – o toque de mensagem da Nokia fazia-lhe lembrar a infância, quando o mundo era mais simples, e alguém cuidava dele. Jogava snake num telefone com teclas, chamava gordo ao Jorge, e quando se sentava para comer com os pais eles perguntavam-lhe como tinha sido o dia, em vez de reclamarem com ele. Pegou no telefone, mas era só a Worten a avisar que estava com 20% de desconto. O sorriso que tinha vindo fazer outra visita foi-se embora a reclamar, enquanto os olhos se reviravam nas orbitas.

Ele saiu do shopping e foi para o autocarro, deixou-se cair no banco como o mesmo desprezo com que atirava a mochila para o chão quando chegava a casa. A cara imóvel, como se estivesse esquecida, aguardava algum acontecimento. Tinha ficado sem net no telefone à dois dias, e não havia nada para fazer. Mas heis algo para quebrar a monotonia! Em resposta, uma sobrancelha levanta-se, e o canto esquerdo da boca faz-lhe companhia, num curto sorriso de escárnio. Por entre o motorista e o primeiro banco, espremia-se um gordo suado. Na cabeça uns cabelos perdidos pareciam sementes no pão. A camisa e os calções eram entre o bege e o castanho e entre eles espreitavam uma fatia de carne gorda, e uma tira de boxers de um verde alface. Era um hamburger ambulante! Sem dúvida um daqueles turistas que tinham invadido o país… Gente com dinheiro para passear, e pelo aspeto também para se alimentar.

O hamburger veio sentar-se ao lado dele, esmagando-o com os seus 250kg de pura carne do lombo contra a janela do autocarro. O suave aroma a suor azedo que se soltava das pregas de carne envolveu-o como uma toalha molhada, e Carlos (já estava na altura de dar um nome à vitima desta história, não é?) virou a cara para a janela. O alivio não era muito, mas não havia grande coisa a fazer. Lá fora estavam a acontecer coisas, cá dentro tinha meio assento para o qual os pneus do vizinho olhavam com ar guloso. Não era uma escolha difícil.

O autocarro parou e alguma malvadez na dinâmica de fluidos fez as dunas de carne roçar-se contra ele, num suave e levemente indecoroso movimento. Carlos estremeceu de alto a baixo e a sua cara, muito mais animada agora que tinha algo para fazer, contorceu-se num esgar de nojo. Claramente os vizinhos do lado de fora da janela, dois putos da faculdade que partilhavam uma mota – o momento fisicamente mais próximo que a sua frágil masculinidade permitia – estavam a achar imensa graça. Riam enquanto olhavam para ele e o Carlos, olhando do topo do seu panorama mental, percebeu que se estava a cagar. Cruzou olhares com o tipo da frente, e lambeu lentamente o lábio de cima. Lá conseguiu libertar uma mão para que fosse vista da janela, e cruzando os olhares com o de trás, fez-lhe o sinal internacional de “anda aqui que eu não te aleijo” com o indicador, e depois deu a entender que talvez aleijasse um bocadinho, esticando o indicador e o médio e fazendo um movimento para trás e para diante enquanto mordia o lábio de baixo.

A velocidade a que os putos pararam de rir e espelharam a sua própria expressão de nojo com a cara foi digna de um qualquer record olímpico. Viraram-se para a frente e o cavaleiro de trás, agora bem mais consciente da proximidade do da frente, afastou cuidadosamente as ancas mais um centímetro ou dois. Carlos começou-se a rir. Até que viu o olhar, sedutor como o de uma vaca no cio, que o colega de banco lhe estava a fazer pelo reflexo do vidro. O sinal ficou verde, os miúdos arrancaram, não sem antes lhe deixarem um pirete, enquanto os torresmos do país vizinho se voltaram a roçar nele devido ao movimento. O homem não despegava os olhos dele, e Carlos olhava resolutamente para fora da janela. Só tinha que aguentar até chegar a casa, e aquele maldito dia ia chegar ao fim. Descanso!

Estava quase na sua paragem, e estava na altura de fazer escolhas com a vida. Sempre escolhas na vida, e sempre igualmente más. Manter-se imóvel até que o presunto se levantasse, ou navegar no mar de banha até chegar ao botão da campainha? Com um suspiro, que não o deixou mais pequeno fruto de já não ser possível encolher-se mais, fez contacto visual com o vizinho. A escultura de gelatina sorriu, e esboçou um pequeno movimento na sua direção. A avalanche de entrecosto fez Carlos temer pela sua vida e antes de que algum desastre tivesse lugar, apontou para o corredor do autocarro, para dar a entender que tinha que sair.

Estavam a chegar à paragem do Zoo, onde ele ia descer. Como um elefante triste, o hamburger virou-se, colocando os pés no corredor. Não se levantou, claramente temia uma repetição do terramoto de 1755. O movimento levou a um alargamento da área vital que Carlos tinha disponível, mas o sentimento de suave humidade pegajosa que tinha ficado nos seus braços, nascido da proximidade com o hipopótamo tinham-no deixado incapaz de se mover. O autocarro parou, e como uma baleia que se arrasta para a praia, no meio de arfanços e grunhidos, o hamburger lá se levantou. E, por alguma maquinação do destino, saiu na mesma paragem que ele

O ar da rua! A liberdade de movimentos! A ausência de contacto físico não desejado! Como é que nunca lhes tinha dado valor antes? E Carlos foi a voar (claro que não, a andar no passo mole de quem não faz nada) até à porta de casa. Chamou o elevador, que o levou até ao primeiro andar, e foi sentar-se à frente do portátil. Pôs os fones, decidido a esquecer o dia, e abriu o computador. Foi aí que o viu. Amarelo como a peste, um post it. A mãe trabalhava por turnos, e devia ter chegado enquanto ele estava fora.

“Tarefas para o Carlos:

  • Pagar a internet (se não vão cortar)
  • Levar o lixo
  • Entregar mais currículos (estão na mesa de entrada)

Beijinhos Mãe”

Carlos deixou a cabeça cair na secretária, e quase chorou. Depois, lembrando-se hoje era um herói, que tinha afastado dois rufiões de mota e sobrevivido a ser quase soterrado, levantou-se. Tinha que fazer alguma coisa pela vida. A mãe e o pai mereciam pelo menos o esforço. Passou pela casa de banho para passar a cara e os braços por água, pegou na mochila onde arrumou os currículos, e saiu de casa.

O elevador recusou-se a vir ter com ele, e parecia que o ouvia a piar no andar de baixo. Com o lixo numa mão, que habitava um braço bem esticado lá desceu as escadas, tentando não respirar. O cheiro azedo do saco lembravam-no do vizinho de quem apenas à momentos se tinha separado. O elevador realmente estava a apitar, e o som foi-se tornando mais claro à medida que descia. Se calhar já conseguiram alugar o andar de cima, e o vizinho está nas mudanças pensou.

Ao virar o ultimo lanço de escadas, e ficar de frente para o elevador, estacou. Como um frango demasiado grande que não caia na couvette, o mastodonte do autocarro estava a tentar arrumar-se no elevador, enquanto este se recusava a fechar as portas e apitava furiosamente. Carlos acelerou o passo, e saiu de casa antes que o Americanossauros o visse. E na sua cabeça estava um único pensamento uma única preocupação. Há muitos anos atrás, o Jorge, colega gordo da escola tinha ficado por cima dele num beliche. Meio para gozar meio a sério, o Carlos tinha-se recusado a dormir por baixo dele. E não é que o beliche se tinha partido durante a noite e o Jorge tinha ido parar ao beliche de baixo? O quarto do andar de cima, aquele que tinha sido acabado de alugar a um novo inquilino ficava mesmo por cima do dele. Talvez fosse altura de imigrar.

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Avô

Há um som bem especial. Entre o murmúrio e o suspiro. Entre o alivio de terminar um trabalho bem feito, e o abraço a uma nova etapa da vida. Se fores em silêncio pela floresta, nos melhores dias do outono consegues ouvir esse som escapando-se das folhas à medida que elas se soltam das árvores.

A casa de repouso de Santa Marta tem um jardim nas traseiras, cheio de carvalhos e plátanos que murmuram e suspiram, deixando as últimas folhas cair. No jardim há bancos virados para o caminho vagaroso, que liga o portão ao lago, e que visita estátuas e recantos recônditos. Os bancos, pacientes criaturas feitas com madeira mais velha do que quem nele se senta, têm por hábito adotar os utentes do centro. Aqui, este com vista para o lago adoptou o Sr. João, que toda a vida viveu junto ao mar. Outro mais nas sombras acolhe a Dona Laura, cujas melhores memórias são de explorar as grutas por baixo do chão.

Mas hoje, um banco está triste. Vai ter que deixar partir o utente que tinha adoptado. O avô Miguel não sabe, ou finge não saber que está na altura de partir. Apesar de parecer que para o Avô é só mais um dia, a madeira do banco conhece os sinais, já os viu um sem número de vezes, e sabe que ele está prestes a ir. O banco adoptou o Avô Miguel porque ele sempre gostou de crianças. Teve cinco filhos e tem um monte de netos, tão diferentes e tão iguais que só visto. O banco que escolheu o Avô Miguel tem vista para a pré, do outro lado das grades que marcam o fim do jardim. Hoje, num dia em que a chuva deu tréguas, as crianças vieram à rua. Algumas, mais audazes brincam nas poças, soltando gritos de alegria e traquinice. Apesar do Avô Miguel já não os conseguir ver, quando o vento sopra na direção certa, ele consegue ouvir os gritos e gargalhadas das crianças e também ele sorri.

A campainha toca, quebrando as gargalhadas e as brincadeiras, e as crianças são arrumadas de volta para dentro. O banco entristece, não gosta de ter o Avô Miguel sozinho. Afinal, adoptou-o porque ele gostava de crianças e quando elas se vão embora o banco fica um pouco sem jeito. Mas o Avô não se preocupa. Sem as crianças lá fora, visita as que vivem dentro da sua cabeça.

O Martim e o Tomás, irmãos loiros, e filhos do Tó. Gostavam imenso de lhe trepar para as costas, e viajar às cavalitas. A Tânia, e a Julia, que traziam sempre alguma coisa para ele, fosse uma flor ou uma tarte. A Laura… Não se lembrava de quem era a mãe, se a Carla ou a Maria, mas os olhos verdes dela não mentiam, saia mesmo ao lado dele da família. E todos os outros, cada um como uma estrela, movendo-se num céu de memórias que só ele conhecia.

E hoje, ele recorda-se de si mesmo quando era novo. Isso é que era viver. Sem nada das distrações onde ele sabe que as crianças e os adultos se afundam. Vivendo simplesmente porque viver era a única coisa que havia para fazer. Jogar ao faz de conta na floresta. Montar cabanas nas árvores. Ir pescar ao rio. Subir às árvores! Cair das árvores! E esconder-se na floresta enquanto procuravam por ele… E encontrar esquilos, e raposas, e texugos gordos! E ter uma energia sem fim, que a cada manhã crescia e se renovava. Isso sim era viver. E essas memórias eram as mais doces, apesar de já serem tão poucas…

Um corvo grasna na árvore ao seu lado, e o Avô Miguel suspira. O corvo, tal como o banco, adoptou-o e avisa quando está na hora de voltar para casa. Mas, algo estranho passa hoje. Por momentos o Avô não se consegue mexer, e quando finalmente se levanta o corvo parece maior, e o banco parece maior, e toda a floresta parece imensa. E mais do que isso! Está a ver tão bem… E repara que há um caminho que nunca viu antes. O Miguel sente as pernas leves como não estavam à pelo menos setenta anos, e pensa para consigo “Vou só ver onde o caminho vai dar, uma aventura como na minha juventude.” E ele segue, e repara na luz suave que há no caminho, e perde-se de encontro a ela e às crianças que o chamam para brincar.

O fogo

No coração da floresta mais profunda há uma cabana.

Ela é toda feita de madeira, em troncos de árvores tão antigas que quase viram o mundo nascer. Redonda como as estrelas, ela tem um chão em madeira e um buraco no centro. Nesse buraco está um fogo, que arde desde o início dos tempos, desde antes da cabana existir. A cabana ergue-se em torno da chama, como se ela mesma estivesse a guardar o fogo. E nessa cabana, vive o filho do filho do filho daqueles que plantaram as árvores que guardam o fogo.

Antes, havia também um santuário de pedra junto ao mar. Nele havia uma piscina redonda onde a água do mar subia e descia com a maré. Mas esse santuário está perdido. Apesar de já ninguém se lembrar dele, o pai do filho da floresta tinha-lhe contado a história desse santuário,

Quando o avô do teu avô era novo, vivia no santuário do mar uma mulher, velha como as marés e sábia como o caranguejo que vive no mais profundo abismo. Ela e as ondas estavam em harmonia. Um dia, uma tartaruga veio até ela, e disse:

Velha senhora, os homens na terra andam atrás dos meus ovos. Pergunto-me se nunca mais terei filhos

Paciencia calma tartaruga. Vou falar com eles para que os teus filhos voltem a caminhar na praia.

Confiando nela, a tartaruga foi embora. A senhora falou com os homens mas eles disseram “Não podemos abdicar dos ovos. Nada teríamos para comer”.

Noutro dia, veio ter com ela uma cria de baleia chorando que disse:

— Velha senhora, os homens na terra mataram os meus pais. Vieram em barcos terríveis, atiraram-lhes com arpões de ferro, e arrastaram-nos para os barcos para fazer coisas indizíveis. Será que também é isso que me espera?

— Paciencia forte baleia. Vou falar com eles para que os anciãos da tua raça sejam deixados em paz.

Confiando nela, a baleia foi embora. A velha senhora falou com os homens, mas eles disseram “Não podemos abdicar das baleias. Como poderíamos acender as nossas lâmpadas sem elas?”

Noutro dia, veio ter com ela uma ostra que disse:

— Velha senhora, os homens da terra torturam-nos e matam-nos para tirar as pérolas que fazemos para nos proteger.

— Paciencia nobre ostra. Vou falar com eles para que tenham misericórdia.

Confiando nela, a ostra foi embora. A velha senhora falou com os homens, mas eles disseram “Não podemos abdicar das pérolas. Como iríamos viver sem o seu brilho?”

A velha senhora suspirou profundamente, e disse:

Por três vezes vos pedi pelos que vivem no mar. Por três vezes se recusaram a ouvir, a escutar. Abdica então o mar da vossa nefasta presença, da vossa gula, soberba, doença. Três vezes vos pedi, e três dias vos darei. Quando os primeiros raios baterem na encosta desapareçam para bem longe da nossa costa.

Mas os homens, como antes, também não a ouviram dessa vez.

E ao fim do terceiro dia, enquanto o sol se punha, os mares subiram e começou a cair uma chuva sem fim. As águas engoliram as cidades, as quintas e todos os homens.”

O filho da floresta, que vive na cabana de madeira desde o inicio dos tempos, todas as manhãs se recorda da história. E todas as manhãs reza para que os animais não venham ter com ele. Hoje, depois de recordar a história e de rezar com mais fervor do que nunca por mais um dia de paz, ele sai para a rua. Lá fora, aguarda por ele um miserável colibri. Com as suas brilhantes penas pretas do fumo, é o terceiro mensageiro da floresta que vem ter com ele. E os olhos do filho da floresta enchem-se de lágrimas.

Tempestade

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O ar bate no rio em fúria.
A água corre veloz, fugindo da sua ira.
Revolta com a injustiça que a rodeia.

O vento chicoteia as árvores, os ramos, as folhas
E elas vergam-se como um só
Direitas e verdadeiras a si mesmas por fugazes instantes

Inquietas como o ar,
E com a certeza de uma mãe que dá á luz,
As nuvens abrem-se soltando frias gotas de chuva

A chuva toca nas árvores
A água junta-se ao rio
E o ar respira fundo e dá espaço á chuva que desce

Assim, tudo é verdadeiro mais uma vez.

E o sol,
Com o seu suave sorriso de avô,
Decide ser tempo de mudar

O seu brilho aparta as nuvens,
Ele mesmo acaricia as árvores
E cada uma das suas folhas

Agora, o doce ar envolve o mundo,
Fresco, calmo, vivo

E quebrando o mundo em dois,
E unindo o mundo em si,
O rio corre plácido,
Cheio dos reflexos do sol, das árvores e das nuvens brancas

Demon 1/3

“So, you want to know love? You want to feel complete? How pitiful. Yes, I can give you that. The price though… I’ll take my time enjoying your essence. Piece by piece, I will take you away from yourself, until you are fully mine. Do we have a deal mortal?”

I was enjoying the hot water running in my back, the feeling of Laura’s soft skin on mine as she playfully soaped me up. The memory froze me, pulling me away. For a moment, I was back to that night, with It’s deep dark voice enveloping me as I stood defiant, protected only by a circle of salt, chalk and my own stupidity. Fuck, I though to myself.

— Lock me in. It’s gonna happen. – I said as I pushed her out of the bathroom, leaving wet footprints on the floor.

I’d told her I had multiple personality disorder. I’d told her the other me was vicious, violent, and the only safe thing for her to do was to lock me somewhere safely way from her until I was myself again. I had made her fear that part of me, fear what would happen if she was ever around while the Demon was out.

— How long will it take this time? – She said as she locked the door.

— About two hours. — I always knew more or less how long I’d be out. As I spoke, I felt my cells starting to hum softly, resonating in the blasphemy that was about to take over my body. Every time It possessed me, It was a little faster taking hold, It would stay a little longer and come a little more often. I wondered, how much longer did I have?

As I heard her walking away, I relaxed. The Demon might have my body, but as long as I was alone it was harmless. And Laura made it all worthy. Thinking of her, I blacked out.

*

For some reason touch was always the first sense to come back. I knew I was standing, holding something between my hands with something else making pressure on my chest, before my sight and hearing came back. I found myself in the living room, holding Laura against the wall, my hands around her neck. Her face was red, tears streamed from her eyes and there was a deep dark fear on them. I let her go immediately, walking away from her as she crumpled to the floor gasping. I started shaking violently, not wanting to believe what had happened. Had It stayed for any longer, and it would have been too late. It was teasing me, showing me what It would do, what It could do, showing me how I was in It’s power. Laura started talking without looking at me, her voice still shaking.

— It’s not your fault. I was stupid. — She uncurled slowly, sitting against the wall. We just stayed there for a moment, unable to look at each other. Looking at her feet, she told me of what had happened.

I had asked for something to read about an hour and half past the beginning of the crisis, saying that I thought It was gone, but that I’d rather watch out for longer. She passed me a magazine under the door, and I asked her to stay and keep me company. We talked, and a quarter to two hours I assured her he was not coming back, and asked to be let out to have something to eat. Reassured by the disguise of normality, she opened the door. The Devil kept pretending, and we shared a meal. It had been seconds before the two hours were over that It had attacked. It had never talked before, just destroyed. I felt sick at the implications. I should have a week before the next crisis, but I had to be as far away as I could by then.

KDB – Capitulo 1

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Kiina e o dragão de bronze

Capitulo 1

Querido Dragão Dourado.

Queria pedir-te por favor alguém para me fazer companhia.

Estou cansada de ser invisível, esquecida.

Sinto-me só.

Obrigado.

Kiina acabou de gravar as letras na casca-negra, e levantou-se. Hoje era o dia da Luz. A mais importante celebração de Inverno comemorava a primeira vez que o mar se tinha acendido, um ano após a queda do céu. Era a noite de pedir favores, prendas e milagres. Alguns pediam ao mar, outros aos feiticeiros mortos. Mas Kiina desde que se lembrava tinha pedido ao Dragão Dourado. Tinham sido os acólitos deste que a tinham acolhido quando ela à costa da cidade, desmaiada, sem memórias e com um cabelo cor de fogo como não havia mais nenhum. A tradição mandava escrever o pedido numa casca da árvore negra e coloca-la a flutuar no mar com uma oferenda. Kiina levantou-se da duna onde tinha estado a gravar a mensagem com a sua faca e desceu em direção ao mar. Tirou do bolso uma pequena escultura feita por si, um dragão a dormir sobre a sua cauda. Chegou junto do mar e fitou-o durante um momento. A noite estava a aproximar-se, o brilho branco e ofuscante do oceano durante o dia tinha dado lugar a uma doce luz ambar. A luz nascia do mar, e refletia-se nas areias de vidro, pintando as dunas e todos os que tinham vindo à celebração de dourado.

Kiina despiu as calças e deixou-as dobradas sobre uma pedra. Ao som da primeira badalada entrou no mar, caminhando até sentir as águas nos joelhos. O calor quase elétrico da água viva a roçar pelas pernas provocava-lhe um leve formigueiro. Agora era apenas um toque leve, como uma caricia. Mas se se deixasse ficar muito tempo as suas pernas iam ficar dormentes e ela podia acabar levada pelo mar. Mergulhou a mão na água e deixou cair cuidadosamente algumas gotas nas letras. A água juntou-se nas depressões feitas pelo canivete dando às letras uma luz suave, tornando-as brilhantes na casca negra. Com uma pequena prece, pousou a casca no mar com a escultura em cima dela, o dragão como se fosse o comandante adormecido de um pequeno barco. Ao som da última badalada largou-a, deixando que as ondas a levassem. À sua volta, muitas outras crianças e adultos faziam o mesmo, pontilhando o mar dourado com quadrados negros e mensagens de luz.

Kiina saiu da água já com as pernas dormentes, sacudindo-as para lhes devolver a sensibilidade. A água viva evaporou-se num instante, libertando-se num vapor luminoso, e deixando-a seca. Recuperou e vestiu as calcas e saiu para Norte, mantendo-se junto ao mar. Ao longo da praia havia risos, famílias e encontros, promessas de uma noite festiva. Kiina passava por elas como um fantasma, ignorada e ignorando. Algum tempo mais tarde, com a noite já instalada, chegou às condutas. Elas saiam como enguias preguiçosas de um túnel que dava acesso à cidade e levavam até lá a água viva que iluminava as ruas e abastecia as oficinas. Na mais larga das condutas, uma monstruosidade vermelha com duas vezes o seu tamanho, a água era bombeada para chegar às torres mais altas do palácio de vidro. A pressão fazia com que a água viva aquecesse, e o calor espalhava-se pela noite. Com o calor vinha a vida, e a conduta junto do mar estava repleta de bivalves e crustáceos que se escondiam com a sua aproximação. Com cuidado para não perturbar a vida que lá se tinha instalado, Kiina escalou a conduta. No frio da noite estava grata pelo calor sob os seus pés. Ainda antes de se dirigir para o túnel, olhou uma última vez para o mar.

Apesar do mar estar negro, as mensagens continuavam a brilhar, enquanto eram puxadas para longe, para onde a luz tinha ido. O tempo era vagaroso nessa noite, e Kinna caminhou pela conduta, subiu para o cubo feio que era a estação de bombear e sentou-se olhando o mar. Ás vezes interroga-se para onde é que a luz ia durante a noite. Se os barcos que eram apanhados nas correntes do crepúsculo chegavam a alguma outra costa do lado de lá do mar. Enquanto pensava, as cartas desapareceram indo para lá do horizonte, ou ficando demasiado pequenas para ela as ver. Deixou o olhar descer, para o recife que crescia junto da estação. À noite, o recife tinha uma luz laranja. O coral mantinha dentro de si alguma água apanhada durante o dia, e mantinha-a sob pressão, criando luz e calor. Os habitantes do recife corriam, entrando e saindo da estrutura. Alguns como sombras, outros camuflados emitiam mesma luz do coral. Os olhos de Kiina demoravam-se explorando as fendas e recantos, quando notou, entre o coral e a estação, algo com um brilho dourado. Com passos curiosos, caminhou até esse lado da estação, e debruçou-se com o rosto em direção ao mar.

O objeto estava abaixo da linha as ondas. Arredondado, tinha o tamanho do seu pulso e brilhava orgulhosamente dourado no meio do coral laranja. Kiina olhou em volta para a praia deserta. Só os artífices responsáveis pela manutenção vinham até aqui, e mesmo eles raramente. Despiu-se, respirou fundo e indo contra tudo o que era ensinado na cidade, mergulhou no oceano.

O frio da água combinava-se o sentimento de formigueiro que caraterizava a água viva. Na cidade dizia-se que entrar no mar era pedir para morrer. Para Kiina, era voltar a estar viva. Sem preocupações, sem distrações, estando apenas atenta em cada momento. Sentia todos os seus sentido mais apurados. O coral brilhava como uma fornalha laranja, na pele sentia as correntes que rodopiavam fruto da estação e a maré que descia . Debaixo de água, o som da estação ficava abafado, e em vez deste ouvia como um murmúrio de uma canção distante. Dizia-se serem as almas dos que ficaram no mar, mas ela não acreditava. Almas penadas não podiam fazer um som tão belo. Nadou suavemente em direção ao ponto dourado. Já se sentia levemente inebriada e sabia que quanto mais tempo ficasse no mar, mais a condição se ia agravar. Ao chegar frente a frente com o objeto, o seu rosto iluminou-se. Madeira d’água! Madeira que tinha estado no mar tempo suficiente para a água entrar em todos os seus poros, e que mesmo depois de seca ia continuar a brilhar. Deitou-lhe a mão, e puxou. O sussurro do mar estava mais alto, e ficar mais tempo ia tornar-se realmente perigoso.

Com o tesouro numa mão, içou-se de regresso à estação. A água a evaporar-se da sua pele tornou-a por momentos brilhante como uma das mensagens enviadas ao mar. Vestiu-se, e sentou-se fitando o que o mar lhe tinha dado. Era um pedaço do tamanho do seu punho, tinha o aspeto de uma raiz antiga, cheia de voltas, nós, e sonhos por viver. Lembrava um pequeno coração. O frio da noite estava mais forte e cansada mas feliz Kiina começou o seu percurso conduta acima. Entrou no túnel, onde o ar já era mais quente, e foi caminhando por baixo da cidade. O seu destino era um pequeno ninho que tinha construído por baixo da estação de comboio, entre as condutas de água e ar aquecido. O inverno tinha chegado em força à cidade e aquele local quente e recolhido era perfeito para ela. Kiina tinha levado para lá umas mantas, e feito uma pequena toca no qual se aninhou agarrada à raiz que tinha encontrado. E nessa noite, embalada pelo som da água a correr na conduta por baixo de si, sonhou.

Estava na praça, e havia um dragão como o que tinha oferecido ao mar, mas com o tamanho de um gato. O corpo fazia lembrar um barco, a cauda longa, a cabeça no topo de um pescoço comprido, e as asas como os morcegos. Na barriga tinha um barril de vidro, cheio de água viva. O corpo era feito de bronze e madeira, as asas de couro, e os olhos de pedras azuis. Ele flutuava por cima de Kina, sem esforço e ela viu, numa loja ao fim do dia, um barril de vidro a ser largado. Estava rachado de alto a baixo, e o dono estava a coloca-lo na rua para ser recolhido pelos homens do lixo. O dragão olhou para ela, e piscou-lhe o olho. E Kina soube que tinha que ir buscar aquele barril.

Kiina e o Dragão de Bronze – Prólogo

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Kiina e o Dragão de Bronze

Prólogo


Marcus Caim, feiticeiro de antanho

De grande carisma, graça e engenho

Queria saber, estava perdido,

Atrás do céu, o que estava escondido?


De mago em mago, esteve a pedir

Ajuda, aliados para descobrir

Uniram-se todos, querendo saber

Não sonhavam de longe o que iam fazer


Apenas um ponto para poder espreitar

Foi quanto bastou para o céu rachar

Em grandes pedaços o céu desabou

O negro se impôs e a vida murchou.


As águas vieram, recolher o céu

De uma ponta à outra o mundo sofreu

Para rio e mar as água voltaram,

Pela terra inteira os magos mataram.


Os rios choravam o céu e a luz

Bradavam ao mar que sempre os conduz

O oceano antigo sabia o que fazer

E desde o seu seio luz fez nascer


Os rios alegraram-se, o mundo iluminado

Uma fraca lembrança do seu céu quebrado

Os rios estavam cheios de centelhas do céu,

E para sua surpresa a sua luz cresceu


O céu estava vivo, podia voltar

Com medo do homem, não queria voar

Escondido na água, nesse abraço terno

Deixou que o mundo virasse um inferno.


Peaceful People

– Submit! – He screamed, his voice like a tidal wave, immense, powerful. Most people would have broken before him. Not me. Like the clouds above the ocean, I was in peace.

– No. – I said, my voice like the breeze, soft and uncaring. Like the ones sent before me, I stood in the path of those who wished to disturb my people’s seclusion. I could almost feel the spirits of my ancestors encouraging me, praying I wouldn’t be the one to betray our lineage, knowing the weight that rested on my shoulders.

– Graaaaaa! – He screamed, walking in my direction, arms spread wide, mouth open in rage – Why? Why must you all be so stubborn? Why must you all defy me? Why! – As he walked in my direction I walked back, ending up trapped between him and the wall,  feeling his heavy breathing against my face. – Why! – He repeated, landing a punch against the wall, next to my head. He didn’t hit me. No one from the outside ever hit one of us.

– Because I must. – I said, my eyes fixating on his – Since you would not listen to my envoys, I came. Believing maybe you would listen to me. Though today, I’m not myself.  – I was smiling now, seeing a shadow of confusion in his eyes – Standing here, I am all of my species, an ambassador from my ancestors, from my siblings and all our children forever.

– How could I do anything but resist, when You – I said, stabbing his chest with a finger, while keeping my voice calm – you wish to put an end to my species?

He walked back two paces, hands clenched by his sides. I saw him closing his eyes and inhaling deeply. His whole body relaxed, and he look through the window a moment before talking again.

– Very well – His voice was poison now, a whisper, speaking as much to himself as to me – Have it your way. – He looked me in the eyes, the anger gone, and in its place only contempt was left. – Warn your people Princess. As I told the last ambassadors, I no longer require you to bend your knee to me. I will burn your forest, and my farms will take its place. I hoped we could find a solution between the two of us. – He stopped, leaving space for all the implications to form. Then, his expression became that of a child, breaking a toy so that no one else could play with it – Warn your people. Warn them that the fire is coming. Tell them that you chose their destruction, and the destruction of all they cherish. – He said, accusingly. From where I stood, his figure was framed by the window and behind him I could see the vast forest that hid my people’s home. The sun was setting, painting it in a fiery red and golden light that would have been beautiful any other time.

– I am truly sorry we couldn’t find any other solution – I answered, with deep sadness in my voice. I knew before coming this was his stance. It was the message the last delegation had brought, and I’d been powerless to change it.

– Be gone! –  He exploded – I will walk the streets of your city, and I will rule it, even if a burned out husk is all that remains! – He finished, almost screaming in my direction. –  Then you’ll be truly sorry. – I left, knowing I had done all I could.

We were a peaceful people, in tune with the rhythm of nature – the seasons, the changes, life and death. We were a peaceful people, knowledgeable of the fruits you could eat, the leaves you could cook, and the roots that would kill you. We were a peaceful people. The king hadn’t noticed the needle under my nail, the prick on his chest, the poison in his blood. We were a peaceful people. The poison would react with his wine, the suspicion would fall far from my people, and his nobles would battle for the empty throne.

We were a peaceful people.

The road I took leaving the castle wouldn’t take me back home. My people need not carry the weight of my sin. Besides, our law was clear – for each life taken, one given.

I went to the moon lake, where the white lady was reflected in the calm waters, pregnant with mysteries and the unknown. There was barely a breeze, barely a rustling of leaves. The soothing sound of the trees entwined with the song of the crickets, in a sweet enveloping melody. I walked into the water, and felt the beings of the lake moving around me, caressing my skin. We were a peaceful people, and I wished nothing as hard as keeping us that way.

There was a reason behind our forced exile, behind the outsiders unconscious barrier against hurting one of us. There was a reason behind the harshness of our laws. We were a peaceful people, but we hadn’t always been so. I dragged my nails against my stomach, cutting skin, exposing flesh, and letting my blood mix with the water. As the beings that had just been caressing my skin tore into my flesh, I could but marvel at how the most peaceful places hid the most vicious beasts.

Mirror Mirror on the wall

I’ve been dancing. For as long as I remember, I’ve been dancing in front of the mirror. Sometimes I play with shards of myself, sometimes I talk with echos of me, but those are but breaks. I dance. And I watch.

Professor Mcgyaran pulled the black curtain back. The twenty one young ballerinas that were part of her class started to move, fluid as water and wind.

I wonder, what happens if one day I say hello instead of moving like they do.

Brianna is the youngest, barely seven and half years old. Momma pushed her to ballet since she was four. She had a so much fun in pre-ballet lessons, dancing, jumping and simply being. But momma says now she is with the big girls, and she has to work a lot to become number one. Brianna is number twenty one. The other girls call her baby. But Brianna has strong legs, and she feels how her body wants to move, and she’ll make it to number ten by the end of October. Brianna always says “Hi” to the mirror, and winks to it as she leaves the class. The mirror always winks back, just a split second longer than she did.

Professor Mcgyaran pulls the black curtain and the lesson comes to an end.

Professor Kyara pulls back the black curtain, and light floods the mirror. Spring has the sun just at the right angle. The room inside it almost seems brighter than the real world.

Brianna faces the mirror looking up and down herself. It is the first time she is standing in that room dressed in something comfortable. She was away for so long. She was too in tune with her body, and struggled with the rituals of ballet. She ended up dropping it when she was twelve. She’s sixteen now, and finally gave in to the hold dancing had on her heart. Her fingertips touch the mirror, and she whispers “Hey old friend”. The reflex’s eyes may have open just a little too wide. And it almost breaks into a smile just before she does.

And, to the tune of something that feels alive, that sends ripples through the glass, Brianna starts to find herself again. And it is beautiful, just like the sun after the rain. And in the reflex, she and her surroundings are just a a little brighter, just a little warmer than the world.

Kyara pulls the black curtain, and the lesson comes to an end.

Brianna pulls the black curtain, but what will start now is not a lesson. It is a dialogue.

It is six in the morning, the sun as cold as the air outside. Half an year since Brianna is back to dancing. Yesterday they gave her the keys so she can practice whenever she wants. She smiles at the mirror, as she proudly displays her new hair cut. Short, asymmetrical. Hers. She moves to the sound system, a spring in her step. A pen appears from one of her pockets, and the reflex almost shivers, tasting the endless possibilities inside as they plug it in. Psystep, or something of the family. You can’t dance it. But you can let it dance you.

Brianna resists, like she would to a lover’s tease. She came to prepare for her show in the winter competition. She has every step of the choreography in her mind. She hasn’t even warmed up properly. But, the music beckons, and, as the bass finally drops, she let’s go.

And she is one with the music. And one with the floor beneath her, and one with the air that caresses her skin as she moves, fluid as the water and the wind. And she is one with in the mirror, where they dance with no regard for the rules of reality. Where limits are something to play with. Where her body is all the bodies that ever danced in the room.

When the music comes to an end, and the dream shatters, she collapses on the floor, warm, sweaty, and filled with a happiness that comes from deep within. She lifts her head, and gazes at her form in the mirror.

Hello.

Falésia

Será que voo?

Já não pela primeira vez, sinto-me a mudar. Como um crisálida que já maturou o tempo devido  e anseia por liberdade. Mas, ao mesmo tempo, o casulo é tão confortável, tão seguro. Lá fora ouve-se o caos, a mudança. As cores do mundo vibram com uma tal intensidade, que não sei como as enfrentar. Que não sei se sobrevivo lá fora. Então pergunto-me –

Será que voo?

Como um homem à beira de um abismo. Para trás fica um caminho já percorrido. Um deserto por onde já andei, que já vivi. Para a frente, apenas o grande desconhecido. Acima, está o céu infinito. As estrelas longínquas, as auroras boreais, todos os mundos possíveis. Em baixo, o mar revolto, que mesmo a esta distância me salpica. Que mesmo a esta distância ruge de tal modo aos meus ouvidos, que mal me oiço a perguntar –

Será que voo?

A harmonia do que já vivi seduz-me. Nada como os diabos conhecidos. Mas não. Não a ouço. Há notas em mim a que valem demasiado para serem abafadas pela melancólica canção do que já foi. Há melodias, sinfonias por explorar. Então olho para o céu vazio. Para o quadro negro onde posso pintar com as minhas cores. Para a pauta em branco onde me posso verter, onde posso fazer do mundo meu instrumento. Inspiro. Os meus ombros recuam, e o meu peito sobe. O meu olhar eleva-se para lá do horizonte. E com um pé fora, apoiado apenas no negro do abismo, há uma parte em mim que grita –

Será que voo?

Um outro aspecto de mim. Um que está consciente dos pingos gelados do mar na minha face. Das pedras aguçadas que me esperam se eu cair. Do uivar do vento. Da violência do mundo. Um aspecto de mim que teme. Que prefere estar amarrado a estar morto. Uma reflexão minha que aprendeu que se nada fizer, nada de mal acontece. Um eco de mim que na verdade não vive. Nem me quer deixar viver.

Será que voo?

E, dando um passo em frente, caindo enquanto o vento me chicoteia, sinto as minha asas a abrirem-se, maiores que o mundo, maior que eu. E, na silêncio que vivo no fundo de mim oiço –

Se levanto voo, ninguém me apanha.