Último curriculo entregue… Pensou ele. Assim que virou costas à senhora que o tinha recebido, o sorriso voltou para casa onde o computador esperava por ele, e a cara assumiu aquela expressão de neutro aborrecimento que quase sempre lhe fazia companhia. Não havia propriamente esperança que desta vez desse nalguma coisa. A esperança tinha emigrado, que era o que o pai dele dizia que ele devia fazer. Mas enquanto não se decidisse que estava na hora de ir embora, ia entregando currículos. Nem que fosse por uma questão estatística havia de ser chamado para algum lado.
O telefone tocou – pipipi pi pi pipipi – o toque de mensagem da Nokia fazia-lhe lembrar a infância, quando o mundo era mais simples, e alguém cuidava dele. Jogava snake num telefone com teclas, chamava gordo ao Jorge, e quando se sentava para comer com os pais eles perguntavam-lhe como tinha sido o dia, em vez de reclamarem com ele. Pegou no telefone, mas era só a Worten a avisar que estava com 20% de desconto. O sorriso que tinha vindo fazer outra visita foi-se embora a reclamar, enquanto os olhos se reviravam nas orbitas.
Ele saiu do shopping e foi para o autocarro, deixou-se cair no banco como o mesmo desprezo com que atirava a mochila para o chão quando chegava a casa. A cara imóvel, como se estivesse esquecida, aguardava algum acontecimento. Tinha ficado sem net no telefone à dois dias, e não havia nada para fazer. Mas heis algo para quebrar a monotonia! Em resposta, uma sobrancelha levanta-se, e o canto esquerdo da boca faz-lhe companhia, num curto sorriso de escárnio. Por entre o motorista e o primeiro banco, espremia-se um gordo suado. Na cabeça uns cabelos perdidos pareciam sementes no pão. A camisa e os calções eram entre o bege e o castanho e entre eles espreitavam uma fatia de carne gorda, e uma tira de boxers de um verde alface. Era um hamburger ambulante! Sem dúvida um daqueles turistas que tinham invadido o país… Gente com dinheiro para passear, e pelo aspeto também para se alimentar.
O hamburger veio sentar-se ao lado dele, esmagando-o com os seus 250kg de pura carne do lombo contra a janela do autocarro. O suave aroma a suor azedo que se soltava das pregas de carne envolveu-o como uma toalha molhada, e Carlos (já estava na altura de dar um nome à vitima desta história, não é?) virou a cara para a janela. O alivio não era muito, mas não havia grande coisa a fazer. Lá fora estavam a acontecer coisas, cá dentro tinha meio assento para o qual os pneus do vizinho olhavam com ar guloso. Não era uma escolha difícil.
O autocarro parou e alguma malvadez na dinâmica de fluidos fez as dunas de carne roçar-se contra ele, num suave e levemente indecoroso movimento. Carlos estremeceu de alto a baixo e a sua cara, muito mais animada agora que tinha algo para fazer, contorceu-se num esgar de nojo. Claramente os vizinhos do lado de fora da janela, dois putos da faculdade que partilhavam uma mota – o momento fisicamente mais próximo que a sua frágil masculinidade permitia – estavam a achar imensa graça. Riam enquanto olhavam para ele e o Carlos, olhando do topo do seu panorama mental, percebeu que se estava a cagar. Cruzou olhares com o tipo da frente, e lambeu lentamente o lábio de cima. Lá conseguiu libertar uma mão para que fosse vista da janela, e cruzando os olhares com o de trás, fez-lhe o sinal internacional de “anda aqui que eu não te aleijo” com o indicador, e depois deu a entender que talvez aleijasse um bocadinho, esticando o indicador e o médio e fazendo um movimento para trás e para diante enquanto mordia o lábio de baixo.
A velocidade a que os putos pararam de rir e espelharam a sua própria expressão de nojo com a cara foi digna de um qualquer record olímpico. Viraram-se para a frente e o cavaleiro de trás, agora bem mais consciente da proximidade do da frente, afastou cuidadosamente as ancas mais um centímetro ou dois. Carlos começou-se a rir. Até que viu o olhar, sedutor como o de uma vaca no cio, que o colega de banco lhe estava a fazer pelo reflexo do vidro. O sinal ficou verde, os miúdos arrancaram, não sem antes lhe deixarem um pirete, enquanto os torresmos do país vizinho se voltaram a roçar nele devido ao movimento. O homem não despegava os olhos dele, e Carlos olhava resolutamente para fora da janela. Só tinha que aguentar até chegar a casa, e aquele maldito dia ia chegar ao fim. Descanso!
Estava quase na sua paragem, e estava na altura de fazer escolhas com a vida. Sempre escolhas na vida, e sempre igualmente más. Manter-se imóvel até que o presunto se levantasse, ou navegar no mar de banha até chegar ao botão da campainha? Com um suspiro, que não o deixou mais pequeno fruto de já não ser possível encolher-se mais, fez contacto visual com o vizinho. A escultura de gelatina sorriu, e esboçou um pequeno movimento na sua direção. A avalanche de entrecosto fez Carlos temer pela sua vida e antes de que algum desastre tivesse lugar, apontou para o corredor do autocarro, para dar a entender que tinha que sair.
Estavam a chegar à paragem do Zoo, onde ele ia descer. Como um elefante triste, o hamburger virou-se, colocando os pés no corredor. Não se levantou, claramente temia uma repetição do terramoto de 1755. O movimento levou a um alargamento da área vital que Carlos tinha disponível, mas o sentimento de suave humidade pegajosa que tinha ficado nos seus braços, nascido da proximidade com o hipopótamo tinham-no deixado incapaz de se mover. O autocarro parou, e como uma baleia que se arrasta para a praia, no meio de arfanços e grunhidos, o hamburger lá se levantou. E, por alguma maquinação do destino, saiu na mesma paragem que ele
O ar da rua! A liberdade de movimentos! A ausência de contacto físico não desejado! Como é que nunca lhes tinha dado valor antes? E Carlos foi a voar (claro que não, a andar no passo mole de quem não faz nada) até à porta de casa. Chamou o elevador, que o levou até ao primeiro andar, e foi sentar-se à frente do portátil. Pôs os fones, decidido a esquecer o dia, e abriu o computador. Foi aí que o viu. Amarelo como a peste, um post it. A mãe trabalhava por turnos, e devia ter chegado enquanto ele estava fora.
“Tarefas para o Carlos:
- Pagar a internet (se não vão cortar)
- Levar o lixo
- Entregar mais currículos (estão na mesa de entrada)
Beijinhos Mãe”
Carlos deixou a cabeça cair na secretária, e quase chorou. Depois, lembrando-se hoje era um herói, que tinha afastado dois rufiões de mota e sobrevivido a ser quase soterrado, levantou-se. Tinha que fazer alguma coisa pela vida. A mãe e o pai mereciam pelo menos o esforço. Passou pela casa de banho para passar a cara e os braços por água, pegou na mochila onde arrumou os currículos, e saiu de casa.
O elevador recusou-se a vir ter com ele, e parecia que o ouvia a piar no andar de baixo. Com o lixo numa mão, que habitava um braço bem esticado lá desceu as escadas, tentando não respirar. O cheiro azedo do saco lembravam-no do vizinho de quem apenas à momentos se tinha separado. O elevador realmente estava a apitar, e o som foi-se tornando mais claro à medida que descia. Se calhar já conseguiram alugar o andar de cima, e o vizinho está nas mudanças pensou.
Ao virar o ultimo lanço de escadas, e ficar de frente para o elevador, estacou. Como um frango demasiado grande que não caia na couvette, o mastodonte do autocarro estava a tentar arrumar-se no elevador, enquanto este se recusava a fechar as portas e apitava furiosamente. Carlos acelerou o passo, e saiu de casa antes que o Americanossauros o visse. E na sua cabeça estava um único pensamento uma única preocupação. Há muitos anos atrás, o Jorge, colega gordo da escola tinha ficado por cima dele num beliche. Meio para gozar meio a sério, o Carlos tinha-se recusado a dormir por baixo dele. E não é que o beliche se tinha partido durante a noite e o Jorge tinha ido parar ao beliche de baixo? O quarto do andar de cima, aquele que tinha sido acabado de alugar a um novo inquilino ficava mesmo por cima do dele. Talvez fosse altura de imigrar.